Blog

Fazendo arte na televisão: Six Feet Under e Modern Family

1012 days atrás

Particularmente, prefiro séries a filmes. Talvez porque as séries dispõem de mais tempo para desenvolver a trama e aprofundar os personagens, mas, além disso, há outro aspecto que tenho notado.

É claro que não posso generalizar, pois continuo assistindo tanto a filmes excelentes como a séries péssimas, mas, no geral, percebo que o cinema tem ficado cada vez mais óbvio — provavelmente pela intenção de atingir um público maior —, enquanto as séries ficam mais complexas. Alguém mais nota isso?

Um bom exemplo é o filme “O Padastro” (The Stepfather), que assisti recentemente nas duas versões: a de 1987 (com Terry O’Quinn!) e a de 2009. Vendo a primeira sequência de ambos, fica bem evidente como o original é mais sutil e tenso, cheio de ideias subentendidas, enquanto a refilmagem é explícita e agressiva.

Pode parecer piada, mas essa comparação de imagens é real.

Por que antes os filmes não precisavam ser tão explícitos e explicadinhos? O público ficou mais burro? Os diretores ficaram preguiçosos? Sempre achei que o maior acesso a informação e ao cinema fossem aprimorar as obras.

A partir desse pensamento, vou falar de dois exemplos que valem pelo lado da “complexidade” que tem crescido nas séries de televisão. Afinal, a TV sempre é vista como o meio for dummies de transmissão, certo? Nem sempre.

Six Feet Under

“A história de uma família que vive em uma casa funerária” não me despertou interesse algum para acompanhar a série, mas depois de muitas indicações resolvi dar uma chance e posso dizer com segurança:

O primeiro episódio de Six Feet Under é melhor que qualquer filme de drama que eu já tenha assistido.

E foi só o primeiro. Nunca imaginei que um assunto tão fúnebre pudesse render uma história tão completa sobre emoções, psicologia, espiritualidade, arte. E tudo isso mantendo o ritmo por cinco anos, sem deixar os episódios repetitivos. Cinco temporadas de choro, angústia, verdadeiros tapas na cara de quem assiste e, misturado a isso tudo, momentos de risos de um roteiro genial.

É uma série que deixa à flor da pele as emoções, não só dos personagens, como dos espectadores. Pra completar, arrisco a dizer que é o melhor series finalle que me lembro. Preciso falar mais?

Modern Family

Se Six Feet Under foi a série que mas me fez chorar, Modern Family é a que mas me faz rir na contagem de gargalhadas por minuto. Curioso como ambas tratam do assunto “família” de maneiras tão opostas, porém nada superficiais.

E se comédia é o que não falta na televisão, essa é uma que se destaca de todas! Não me lembro de ter visto um elenco tão incrível como este da família moderna: do sotaque colombiano de Gloria, às expressões sem igual de Phil e até os atores mirins dão um show. Não é à toa que está com o maior número de indicações ao Emmy deste ano.

Geralmente as comédias têm uma ou duas grandes cenas por episódio, e outro diferencial de Modern Family é que cada sequência é importante para encaixar o roteiro do começo ao fim. Apenas uma temporada, mas entre 24 episódios excelentes, não conseguiria dizer quais foram os melhores ou piores, de tanto que essa série me surpreendeu.

Vale destacar o 19º, com o título de “Game Changer”. Um episódio inteiro dedicado ao lançamento do iPad, mas que em nenhum momento fica fora de contexto ou deixa o espectador incomodado. Enquanto no cinema você vê o Will Smith esfregando seu tênis All Star e o logo da Audi na lente da câmera, outra lição de product placement aconteceu em The Big Bang Theory com o Activia, onde sequer mostraram o logo do produto! Foi de bater palmas pela sutileza e eficiência.

Ok, comparar com “Eu, Robô” foi sacanagem, mas vocês entenderam o propósito, né? :P

• • •

Duas super recomendações para quem ainda não assistiu e se vocês têm alguma outra “obra-prima” para citar, vamos usar esses comentários!

É claro que tem mais. Nem preciso falar o quanto considero Lost uma série única, acompanhada de uma lista enorme de nomes que dariam mais dez ou vinte posts. Fico pensando se Seinfeld, por exemplo, teria tanto sucesso no cinema ou seria um fracasso. Ou mesmo na adaptação de Sex & The City para os dois filmes que, pelo menos para mim, desviou por completo da série.

Continuo curtindo filmes da mesma forma, e não tiro o mérito do cinema, mas sinto falta do “ir além” nos títulos recentes, que fica cada vez mais raro de se ver. A arte audiovisual não se limita à sétima.

Comentários

Comentários (12)

  1. Antigamente eu era mais uma movies person… mas algumas séries sempre me surpreendem… além de poder desenvolver a história melhor, você tem a chance de participar mais da história, por que, afinal, se você gostou da série ela acaba te acompanhando por um bom tempo né.

    Aliás, amando Modern Family!
    =*

  2. Modern Family é o primeiro mockumentary que consigo assistir. Já assisti a temporada duas vezes :-)

  3. Taí um bom argumento para séries serem mais complexas: tempo. Um filme bom, que conta uma história como tem que ser contada, nunca tem apenas os 90 minutos usuais né?

    Fui no cinema semana passada assistir A Origem e fiquei de boca aberta durante algumas (várias) horas depois… tal qual como fiquei quando saí da sala para ver Matrix! Existem filmes muito bons, mas é fato que a grande maioria dos lançamentos sempre são feitos para ser blockbusters. Já os seriados, não! Seriados tem um nicho menor, é beeeem diferente… fora que tem o tempo né?

    Ainda não assisti essas séries que vc fala! Preciso achar o meu tempo pra tudo isso, hehehe…

    beijocas Laricota :)

  4. Eu confesso que tentei dar uma chance a SFU depois de ler tantos comentários excelentes em relação a série, mas acho que não deu muito certo. acabei baixando as duas primeiras temporadas, mas quando resolvi assistir não passei da metade da primeira. Achei os episódios muito “empurrados” e um pouco cansativos. Não gosto muito de séries complexas, prefiro as mais fáceis, rss, pode-se até dizer as séries de mulherzinha. É claro que não desisti completamente, pretendo voltar a ver futuramente com mais calma para ver se não mudo de opinião, mas a primeira impressão que tive não foi muito boa!

    @lucas_santtos

  5. Genial esse post. Não houve sequer um momento onde eu discordei do texto. É uma pena como tem gente que ainda menospreza a qualidade da programação televisiva atual.

  6. Parabéns pelo post! Terminei Six Feet Under esses dias, e posso dizer que foi o melhor final de série que já vi NA VIDA! Mudou minha forma de ver as coisas, fantástico!
    E Modern Family é minha maior aposta para o Emmy desse ano, com certeza a melhor comédia da atualidade (WTF GLEE????)

  7. Ainda não tive oportunidade de assistir a nenhuma das duas séries, mas concordo que a possibilidade que esses programas têm de desenvolver suas tramas e personagens os tornam bem mais interessante do que muitos (felizmente não todos!) filmes. Ainda assim, não dispenso um bom longa metragem. Particularmente, acho Dexter uma excelente série, com diálogos sempre muito interessantes. E mesmo que um seriado não seja inteiramente bom (acho que nenhum é 100% bom do começo ao fim da temporada), há casos em que um personagem específico consegue me captar, como acontece com o Grissom de C.S.I. Las Vegas, uma espécie de Sheldon sem a Síndrome de Asperger.

  8. [...] dia a dia me esqueci dela. Me esqueci até o dia que minha amiga* Larissa Herbst (@larissaherbst) postou algo sobre a série em questão: Six Feet Under. Como eu e Larissa temos gostos em comum no que se [...]

  9. Larissa, acompanho um pouco do seu trabalho e muito do que vc escreve. Também prefiro séries, vou ver six feet e modern family. mas cada vez mais tenho me deparado com ótimos filmes, claro que fora do circuito comercial. Dica: Se gosta de sutilezas, assista um doc chamado HAVANA, onde nenhuma palavra é dita praticamente. Assim como nas séries, temos de garimpar pra achar as boas, no meio de tantas porcarias.

  10. Na mosca !!!

    Sinto saudades da época em que a criatividade era necessária porque nao existiam recursos técnicos para filmagem (vide ˜Tubarão˜, onde o bicho mecanico deu pau durante a filmagem e o diretor foi obrigado a ˜improvisar˜. A sutileza da sugestão é muito mais aterrorizante do que seria um tubarão tosco 70s-like). O “balconista” é outro. o Kevin Smith com recur$$os não foi tão interessante.

    Vivemos em um mundo com excesso de informação e muito imediatista. Cada vez mais os filmes ganham mais destaque por recursos técnicos / ˜quem participa”. A preocupação de como contar a história torna-se secundária.

    Um FlaxFlu frustrado e algumas doses de whisky depois, meu dia foi salvo pelo ˜Mary and Max˜ hoje.

  11. SFU não tem comparativos. E como teve um índice de audiência muito alta, vários prêmios e sensibilidade ao tocar temas polêmicos, prova que o povo não é tão burro assim. Outra série que teve muito sucesso de público nos EUA e não era nada fácil foi “Twin Peaks” do David Lynch, vale conferir.
    Mas o cinema não deixa de ter filmes densos. Gostei muito de Never Let Me Go, que inclusive está na minha lista http://chantinon.blogspot.com/2011/04/filmes.html

  12. Hoje terminei Six Feet Under… Série assombrosa. Melhor final de série mesmo 6 anos depois.

Deixe um comentário

O critério de moderação é apenas um: bom senso! ;)